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Jornal "O Comércio do Porto"

Há quanto tempo existe o Instituto de Medicina Tradicional e quais as motivações que levaram à sua constituição?

O I.M.T. - Instituto de Medicina Tradicional, existe desde 1997. E as principais motivações que levaram á sua constituição prendem-se com a constatação de que não existia na altura qualquer oferta formativa com o mínimo de qualidade e dignidade que esta área merecia. A área da Medicina Tradicional abrange um conjunto de valores e atitudes que deveriam estar presentes na nossa conduta diária, por esta razão cabe a entidades como o IMT a responsabilidade de procurar informar adequadamente o público para que este, em posse de novos elementos, possa fazer opções mais adequadas e consentâneas com a sua condição de Ser integral e Holístico.
O cidadão deve tomar consciência que é dotado de um corpo físico, mental, emocional e espiritual que deve querer manter em perfeito estado de equilíbrio na sua relação interna consigo mesmo (intrapessoal) e na sua relação externa com o meio envolvente, porque, quando vítima de agressão externa ou interna este equilíbrio pode ser colocado em causa provocando uma reacção em cadeia que leva a uma eventual debilidade na sua saúde, pois como a define a OMS - Organização Mundial de Saúde, esta não é a mera ausência de doença e antes o bem estar físico, emocional e social do indivíduo.

Quais os objectivos principais deste Instituto?

O IMT - Instituto de Medicina Tradicional tem por finalidade a investigação, ensino, formação e divulgação de boas-práticas de Medicina Tradicional / Medicina Complementar e/ou Alternativa. Através sua afirmação no mercado nacional como a principal referência na sua área, para tal assume como meta a busca da Qualidade Total relativamente a metodologias de investigação, ensino, formação e divulgação de boas-práticas.

O que distingue a Medicina Tradicional da Medicina Convencional?

A diferença fundamental reside na abordagem utilizada, ou seja, a medicina convencional faz uma abordagem sintomática usando as alterações patológicas como referência e a medicina natural faz uma abordagem holística e integrada do indivíduo tendo como referência as condições que levam à manifestação da condição.

Este Instituto promove cursos sobre Medicina Tradicional? Qual o âmbito destes cursos e a quem se destinam?

O I.M.T. tem a maior oferta nacional no que diz respeito à Medicina Tradicional e Complementar. A sua oferta formativa está dividida em cinco grandes áreas ou departamentos, nomeadamente o DES - Departamento de Estudos Superiores, onde se incluem cursos como Curso Geral de Naturopatia e Ciências Tradicionais Holísticas, Curso Geral de Acupunctura, Moxabustão e Fitoterapia Chinesa, Curso Geral de Osteopatia e Curso Geral de Homeopatia. Outro dos departamentos corresponde ao DMN - Departamento de Medicina Natural, DTM - Departamento de Técnicas Manipulativas, o DMTC - Departamento de Medicina Tradicional Chinesa e ainda o DESC - Departamento de Estudos Sócio-Comportamentais. Quanto ao público-alvo da nossa oferta formativa, este é bastante variado, no entanto colocamos o enfoque nos profissionais de saúde, convencional ou complementar. Através da consulta do nosso site (www.imt.pt) é possível conhecer as Fichas Técnicas de cada um dos nossos cursos e assim verificar o público-alvo específico de cada um deles.

O Instituto de Medicina Tradicional tem projectos a curto-médio prazo? Quais?

Os projectos do IMT, independentemente de serem a curto ou a médio prazo, fazem parte de uma visão estratégica, pelo que todas as actividades desenvolvidas estão interligadas, no entanto, e sendo esta uma publicação que circula no norte do país, talvez valha a pena referir alguns dos projectos que estão ser desenvolvidos na nossa Delegação Norte na cidade do Porto. Assim, enquanto projecto a curto prazo está prevista a implementação de um curso de Shiatsu, de um curso de Auriculoterapia, de um curso de Osteopatia e ainda de um curso de Terapeuta/Monitor de Tai-Chi, para além de darmos continuidade aos que já decorrem nesta delegação, nomeadamente o curso de Acupunctura, Moxabustão e Fitoterapia Chinesa e do curso de Massoterapia e Técnicos Auxiliares de Fisioterapia. Quanto a projectos de médio prazo, temos ainda o prazer de anunciar que irá iniciar-se para o ano lectivo 2005-2006 o Curso Geral de Naturopatia e Ciências Tradicionais Holísticas, curso este integrado no DES - Departamento de Estudos Superiores.

Como perspectiva o futuro do IMT e da própria área em que está inserido?

O IMT, em virtude de estar a liderar um processo de mudança de paradigma no nosso país, liderança esta que foi desejada e alcançada através de muito esforço e dedicação, é hoje a principal referência nacional no que diz respeito ao ensino e divulgação da Medicina Tradicional. Assim, o futuro do IMT só se pode afigurar como risonho, não querendo isto dizer que esperamos facilitismos ou tratamentos preferenciais, antes pelo contrário, pois temos a absoluta consciência que, apesar de existir uma Lei de enquadramento da área, existem determinados interesses corporativistas e outros cujo único propósito passa por denegrir uma ciência médica de elevado valor científico e humano.
Relativamente à Medicina Tradicional como um todo, perspectivamos ainda algumas dificuldades de implementação e disseminação na sociedade portuguesa. São vários os factores que contribuem para esta situação, pois de nada valerá a Lei de enquadramento do sector se as comissões responsáveis pela regulamentação da mesma não definirem o quanto antes as linhas de orientação para a actuação e formação destes profissionais, de forma a que as suas práticas sejam efectivamente de qualidade e consentâneas com os objectivos propostos pela O.M.S., nomeadamente através de um documento intitulado "Estratégia para a Medicina Tradicional - 2002-2005". Por outro lado os interesses corporativistas são outros dos entraves possíveis a este processo, pois já temos exemplos num passado não muito distante de tentativas, algumas das quais totalmente descabidas e por essa razão sintomáticas de algum desespero, no sentido de manter este tipo de cuidados de saúde inacessíveis à população em geral. Ainda assim, é já hoje notória a inversão desta tendência, ou seja, a abertura da sociedade portuguesa a estas práticas "não convencionadas" é uma realidade em crescendo.

Como vê o IMT a relação entre a Medicina Convencional e a Medicina Tradicional?

Entre tudo aquilo que ainda pode ser feito, destacaríamos a aproximação entre a Medicina Convencional ou convencionada e a Medicina Tradicional, aliás, em prol da clarificação e do dever de informação deveríamos aqui dizer que o termo Medicina Convencional corresponde àquele tipo de medicina que normalmente se designa também como Medicina Ocidental; Bio Medicina; Medicina Alopática; Medicina Científica ou Medicina Moderna. Ou seja, será aquele tipo de medicina que se convencionou no Ocidente como aquela que deveria fazer parte dos respectivos sistemas nacionais de saúde. Por Medicina Tradicional deve entender-se aquele tipo de medicina que corresponde às práticas tradicionais de um determinado país ou região na área da saúde. Aqui incluem-se diversas práticas clínicas, abordagens terapêuticas, conhecimentos, saberes, tradições e crenças que incorporam remédios naturais à base de plantas, animais e minerais, incorporam ainda terapias espirituais, técnicas manipulativas e determinados exercícios aplicados isoladamente ou combinados, com o objectivo de manter o bem-estar, bem como tratar, diagnosticar e prevenir a doença.
Por Medicina Complementar deve entender-se então, aquele tipo de medicina que em tudo é semelhante à anterior, contudo não tem obrigatoriamente uma expressão tradicional num dado país ou região e não estão ainda integradas no respectivo sistema de saúde dominante. Por Medicina Alternativa deve entender-se aquele tipo de medicina que em tudo é também semelhante à anterior, contudo classificaríamos de Alternativa aquela medicina que é escolhida pelo utilizador como alternativa a um outro tipo de tratamento mais convencional.
Chamamos a atenção ainda para um outro termo hoje algo utilizado - Medicina Integrada devendo entender-se este, como aquele tipo de medicina que em tudo seria semelhante ao conceito de Medicina Complementar, contudo existe uma diferença fundamental que justifica a sua classificação. Os defensores da Medicina Integrada (e já os há no nosso país) partem do pressuposto de que só será medicina aquela prática terapêutica que demonstre eficácia à luz das metodologias e bases filosóficas científicas ocidentais e que por essa razão possam ser integradas nas respectivas formas de actuação da medicina convencional, pressupondo ainda que o profissional de saúde que aplique estas práticas não tem autonomia para o seu desempenho tendo que estar sob a direcção clínica de um médico convencional registado como tal na respectiva Ordem dos Médicos. Felizmente que os legisladores nacionais não pensam desta forma pois conferiram total autonomia ao terapeuta não-convencional. Aliás outra coisa não seria de esperar, pois se nos determos nesta problemática com mais alguma atenção e honestidade intelectual percebemos que a mesma está desprovida de qualquer sentido, sendo mesmo contraditória, a não ser claro, num sentido marcadamente proteccionista/corporativista e por essa razão pouco ético. Ao afirmarmos que esta abordagem está desprovida de sentido e o ser contraditória, pretendemos demonstrar que a premissa de que só pode ser terapêutico, e por consequência eficaz e seguro aquilo que só após submissão a uma abordagem ocidental da ciência demonstre resultados, teríamos que colocar de lado, por exemplo, a acupunctura, teríamos que não considerar integrável uma prática com 5.000 anos de existência (reconhecida pela OMS e por conseguinte pela própria comunidade científica ocidental com uma prática terapêutica válida), pois que à luz da ciência ocidental conceitos como Chi ou energia vital que circula pelo corpo, em redor deste e mesmo entre organismos, ou ainda o conceito de meridiano ou seja o canal por onde circula esta mesma energia vital, ou ainda pontos de acupunctura, ou seja, os locais onde é possível o terapeuta interagir com o estado energético do paciente através da inserção de agulhas ou outras práticas, são considerados folclore chinês, carecendo estes de validação científica por estarem imbuídos de valores culturais que, na óptica ocidental de ciência, seriam elementos que contrariam ou impedem a validação científica destas práticas.
Finalmente, o termo MT/MCA - Medicina Tradicional / Complementar e/ou Alternativa, tal como preconizado pela O.M.S. - Organização Mundial de Saúde, corresponderia a todas aquelas práticas terapêuticas que podem ser classificadas como tradicionais, complementares e alternativas, tal como atrás descritas.
No IMT preconizamos que a diferenciação entre Medicina Tradicional e Medicina Complementar não será necessária realizar, uma vez que apesar de não ser tradição em Portugal por exemplo, a prática da acupunctura, não quer isto dizer que a mesma não deva ser uma prática complementar a outras realizadas no nosso país, convencionais ou não. O IMT preconiza ainda que se deve, por outro lado, articular o conceito de Medicina Complementar e de Medicina Alternativa através das conjunções "e/ou" pois, tal como explicado atrás, a Medicina Alternativa só o é na óptica do utilizador, pois e em última instância caberá a este a escolha do seu próprio tratamento. Assim, estamos em crer que esta é a terminologia mais adequada, podendo a mesma ser resumida como Medicina Complementar (MC) uma vez que em última instância todas as práticas terapêuticas deveriam servir um mesmo objecto - a abordagem holística do indivíduo, visando o seu bem-estar geral.

Mário Jorge Rodrigues Director do I.M.T.


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